Neste domingo continuamos a nossa caminhada de Advento, com a ajuda de dois profetas - Isaías e João Baptista - e d'Aquele que eles anunciam. Como profetas, são homens que vivem no meio do mundo, num contexto sociocultural e religioso próprio, mas que conseguem ver 'fora da caixa', conseguem contemplar os desafios que o mundo lhes coloca com um olhar de esperança, e com respostas tantas vezes longe do ‘sistema’ convencionado.

Isaías não se perde em 'conversas da treta' mas começa com um imperativo; ou melhor, 'o' imperativo: "Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus." Imperativo para ser "gritado com voz forte" à cidade de Jerusalém e de toda a humanidade!

A consolação do outro, meu irmão, deveria ser a forma mais natural de preparar o caminho do Senhor. O outro que recebo como um dom, o outro que consolo com o meu trabalho de agricultor, de médico, padre, investigador ou reformado.

Não é um convite a consolar-me a mim mesmo, a calçar as pantufas e a 'alapar-me' no sofá em frente à lareira, estimulado pelas doces músicas de Natal que se ouvem nas ruas e shoppings por estes dias, ainda nem o Advento tinha começado, a não ser o advento do comércio, sobretudo aquele que, porque dentro do sistema instituído, perpetua a injustiça social que a mudança de João Baptismo da cidade para o deserto denuncia.

João deixa os centros de decisão, deixa a cidade, o templo, e vai para o deserto, não por uma mera opção naturalista, de contato com a natureza, mas repropondo um modelo económico, onde quem tem duas túnicas deve dar uma a quem não tem nenhuma, e o mesmo deve fazer com a comida, as pencas, os grelos e os ovos.

Porque dar a quem precisa, e há sempre alguém que precisa, é preparar o caminho do Senhor mas também fazer o meu, 'fora da caixa', fora do sistema injusto onde compramos t-shirts a 5 euros porque foram feitas recorrendo a mão de obra escrava no Bangladesh ou legumes cujo cultivo envenenou rios e vidas noutro lugar qualquer do planeta, longe do nosso olhar e consciência.

Porque dar a quem precisa, não como caridadezinha esporádica mas como forma de estar vida, deve ser para a igreja e para os cristãos mais do que uma opção um imperativo!

Porque dar a quem precisa o que somos e o que temos é a nossa forma de comunicar a graça de Deus que perpassa a nossa vida; de mostrar que, ao contrário de Caim, o nosso dizer e fazer não é fruto da violência e dos nossos 'maus fígados', mas do amor e da misericórdia de Deus que completa em nós e nas nossas obras o que pelas nossas forças não conseguirmos fazer.

"Preparai o caminho do Senhor"! E o vosso também! "Consolai, consolai o meu povo".


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