A reação de Maria às palavras do Anjo (Evangelho) foram de perturbação, logo depois questiona, e só por fim dá o seu assentimento.

Por vezes tenta-se passar a imagem de Nossa Senhora como uma mulher de tal modo obediente à voz de Deus que o seu sim dado em liberdade e consciência quase se perde.

Na verdade, Maria, porque faz uso da razão, com as balizas próprias da sua cultura, educação e fé, sabe que aquilo que o anjo inicialmente lhe diz faz pouco sentido; pelo menos para ela; na vida dela.

Mas ao mesmo tempo a sua fé forte permite que as últimas palavras do anjo, essas sim, façam todo o sentido: «a Deus nada é impossível». E o coração de Maria era terra fértil para a novidade de Deus na história da Salvação, na nossa história.

Foi assim que ela se tornou "Templo de Deus", bem mais de Deus do que o templo que o rei David desejava construir. Também eu tive a oportunidade de trabalhar na reabilitação de igrejas e construção de outras, tão importantes para celebrarmos comunitariamente a Fé, mas nunca perdi de vista o "templo" que eu sou e sou chamado a ser, o "templo" que a Igreja é e é chamada a ser, o "templo" que cada pessoa que encontro é e é chamada a ser. 

Esta manhã, depois de celebrar a Santa Missa, fui visitar a um lar uma senhora que já fez 100 anos. Toda a vida foi muito activa na Igreja e agora, diz, que embora continue a sentir um enorme amor por Jesus Cristo, não se revê "nesta Igreja". Não tem a ver com ritos velhos ou novos ou com os paramentos que os padres vestem, mas a desilusão de quem nesta idade se pode "dar ao luxo" de não perder tempo com banalidades e está farta do desgaste sofrido pela Igreja de Jesus Cristo com vaidades e conversas "balofas". Ela, diz, sempre trabalhou por "uma Igreja que ajude a crescer e não a encolher", uma Igreja "que não se perca no supérfluo". A dado momento, talvez porque não esperava de uma mulher com 100 anos, que sofreu um AVC há pouco mais de 2 semanas, tamanhã lucidez evangélica, suspirei profundamente e ela logo que me disse prontamente: «se o sr. padre suspira assim é porque há algo em si que o faz reconhecer que é preciso começar de novo».

Porque já estava a ficar sem jeito mas também porque não a queria cansar, rezamos um pouco. Depois de receber com fé a Sagrada Comunhão e a Santa Unção repetiu: «Sr. Padre, se quiser começar de novo pode contar comigo». E essas palavras fazem-me voltar a suspirar profundamente, agora sentado ao computador, como tenho vindo a fazer desde que regressei a Portugal.

Tenho recebido tantas pessoas, de todas as idades, que carregam fardos quase insuportáveis; e a Igreja em vez de "estar em saída" continua tantas vezes enfiada na sacristia com conversas para "encher chouriços". Há tantos homens e mulheres carentes de consolação, de escutar vozes de esperança e não de mais desgraça, de quem lhes diga não frases feitas à venda a 3-100, 3-100, como no mercado do Bolhão, mas palavras que façam sentido porque a Palavra de Deus é significativa na vida de cada pessoa.

Por isso, peço ao Menino Jesus que me conceda a graça de gastar o tempo que Ele me concede com pessoas que querem crescer e com elas cantar «eternamente as misericórdias do Senhor» (Salmo) e a todas direi: «Faz o que te pede o teu coração, porque o Senhor está contigo». (1ª leitura)


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