Não, não é um texto autobiográfico ainda que uma opinião tenha sempre algo de nós mas tocou-me, neste dia, celebrar a Santa Missa em duas comunidades de religiosas, ambas da Família Franciscana. Por isso procurei meditar de que forma o fenómeno das migrações e dos refugiados afeta também a Vida Religiosa. Não se trata de fazer comparações absurdas com quem foge da guerra ou da fome mas tão só de constatar que há determinadas formas de violência, algo escondidas, que também afetam a Vida Consagrada, que provocam "migrações" e "refugiados".

Em países com pouca ou nenhuma liberdade religiosa ou com elevados índices de criminalidade, muitos padres e comunidades religiosas são afetadas por roubos, raptos e assassinatos. Muitos são obrigados a fugir. Mas é de outros "migrantes" e "refugiados" que urge falar para que se possa tentar estancar aquilo que o papa Francisco já apelidou de «"hemorragia" na Vida Consagrada». Segundo estatísticas da Santa Sé, cerca de 2300 religiosos e religiosas abandonam o ministério todos os anos!

Para D. José Rodríguez Carballo, isso deve-se à fragilidade dos compromissos: «Vivemos num tempo de zapping em que não assumimos compromissos a longo prazo». Será assim!? Talvez em parte porque há um processo de discernimento feito por cada indivíduo que pode conduzir a uma saída mas não creio que isso explique tudo.

Há consagrados e consagradas duma fé e doações absolutamente maravilhosas (tive a graça de conhecer vários/as) que, de "repente", abandonam a Vida Religiosa pois sentem que a sua vida em comunidade deixou de fazer sentido. Por vezes "confessam" que a sua vida se tornou um autêntico inferno pelas mesmas razões apontadas com alguma clareza no documento «Vinho Novo, Odres Novo» da CIVCSVA: difícil integração de gerações e culturas, burnout, sufoco das atividades apostólicas, sentir que não se é respeitado na sua dignidade ou o uso da autoridade tantas vezes não para ajudar a crescer e a organizar as diferentes dimensões da vida de uma comunidade mas para oprimir e "matar o Espírito".

Poderíamos acrescentar outras razões: incoerência entre o que é anunciado e a vida vivida no dia-a-dia, por exemplo, na pobreza ou no respeito pela criação. Quantos padres e comunidades religiosas usam carros elétricos ou, ao menos, fazem a separação de lixos? Essa distância absurda entre o ideal e o real de uma comunidade tornam a vida em comunidade um desafio gigantesco, por vezes insuportável, e por isso muitos ou pedem para "migrar" para outra comunidade na esperança de uma "vida melhor", isto é, a possibilidade de realização vocacional, ou, quando já não têm fé nenhuma na comunidade, para abandonar o Instituto ou Congregação.

Por isso, neste dia, imploro a intercessão da Virgem Maria, Mãe de Deus para tantos religiosos e religiosas em enorme sofrimento e angustia para que encontrem alguém com quem falar, partilhar as suas angustias e juntos rezarem, pedindo ao Senhor o dom da fortaleza. 

Fica a sugestão de leitura: Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz


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