No livro «Mai Haré Timor» (nn. 171-172), a Conferência Episcopal Timorense afirma que os cristãos devem seguir a ortografia deixada pelos antigos missionários mas esta, na verdade, é diversa ou, se preferirmos, foi evoluindo ao longo dos anos. Encontramos diferenças nas opções ortográficas, por exemplo, entre Sebastião Maria Aparício da Silva (1889) Diccionario de Português-Tétum, Raphael das Dores (1907) Diccionario Teto-Português, Manuel Patrício Mendes e Manuel Mendes Laranjeira (1935) Dicionário Tétum-Português e a Comissão Litúrgica da Diocese de Díli (1980): 1) Ordinário da Missa: Texto Oficial Tétum; 2) Leccionários. Por vezes, dentro do mesmo texto eclesiástico, aparecem duas opções ortográficas diferentes o que mostra que a própria Igreja tem dúvidas sobre qual é a ortografia do tétum “dos missionários”. A questão ortográfica parece ser, assim, uma questão ainda em aberto mesmo no seio da Igreja Timorense.

O que é claro, para já, é que os empréstimos lexicais devem ser escritos na sua forma original.

Durante muitos anos eu segui a ortografia do Instituto Nacional de Linguística porque um estrangeiro para aprender uma língua precisa de um “prontuário ortográfico” e a Igreja apesar de falar no tétum “dos missionários” até hoje ainda não teve a possibilidade de disponibilizar qualquer material linguístico para estudo.

Em 2015, após concluir a tradução do documento Laudato Si', do Papa Francisco, cheguei à conclusão de que a ortografia usada (INL) não favorece a compreensão do texto.

Entretanto, o Parlamento Nacional aprovou uma resolução em 2011 (n.º 20/2011, de 7 de setembro), onde pede que seja feita uma revisão da ortografia. A discussão necessária em vista dessa revisão, deveria reconhecer o papel fundamental da Igreja Católica na evolução da ortografia do tétum.

Ortografia usada pelo Parlamento Nacional

  1. A maior parte das palavras em tétum são escritas segundo a ortografia disseminada pelo INL como por exemplo: ne'ebé, hakarak, surat, Maromak, halakon, buka, bainhira.
  2. Todas as palavras assimiladas do português mantêm a sua ortografia original (Exemplo: “pão” continua “pão”) para que as pessoas não tenham de aprender duas ortografias diferentes (tétum e português) para a mesma palavra.
  3. Onde possível mantêm-se regras que não se contradigam na ortografia do português e do tétum. A regra aqui, para ambas as línguas, é: um "s" entre vogais lê-se [z]. Para as palavras autóctones (que não vieram do português) o som [s] escreve-se com um "s", a não ser entre vogais, em que se escreve com "ss". Por exemplo: "Iha primeira fase ita fasse roupa sira-ne'e..." Para nós é automático que o "s" de casamento se lê [z], tal como era para os timorenses letrados em 75 (por isso é que há grafias dessas em tétum no jornal da Fretilin em 75, como se pode ver abaixo na foto). A ideia é que seja automático para as novas gerações também, que se espera que saibam ler e escrever tétum e também português.Ortografia usada no Jornal da Fretilin

«Finalmente, é chegado o tempo de realizar uma ousada revisão da norma ortográfica oficial da língua tétum que ponha cobro às importantes resistências que até agora impediram a sua generalização e facilitem o seu intercâmbio com a língua portuguesa, reduzindo ao mínimo a necessidade de aprendizagem de duas grafias para as mesmas palavras.» (Jornal da República, Série I, nº 33)

Alguns documentos que usam (ou sobre) a ortografia experimental do Parlamento Nacional: 

A minha opção

  • Depois de mais de 12 anos a escrever segundo a ortografia padronizada do INL, agora optei pela ortografia experimental do Parlamento Nacional que me parece muito mais assertiva.
  • Nada é estanque e o mais importante é que se retome a discussão em torno da ortografia para que INL, PN, Igreja Católica e outras instituições de referência chegem a um consenso.